XTerra Ilha Bela - 50 k

Escrever sobre o XTerra Ilha Bela 50k não é simplesmente relatar como foi a “minha” participação na minha primeira ultramaratona de montanha, mas também uma recente trajetória que marcou um período interessante de reflexão. Por sinal, a relação profissional e pessoal de um amante da corrida está fortemente ligada pelas suas oscilações, mudanças e recomeços. Dessa maneira, com a proximidade do final de um ciclo profissional*1 onde estava atuando com constantes viagens internacionais, iniciou-se também este novo recomeço de vida (observação escrita de ultima hora: ou mesmo tentativa).

 

A volta aos treinos sempre é um período doloroso, humilhante e penoso, porém experiências passadas nos tornam suficientemente inteligentes para uma rápida lembrança que essa fase terá suas recompensas. Na verdade nem precisamos esperar a fase concluir integralmente, pois até mesmo porque não sabemos qual é o seu prazo, podemos nela mesmo aproveitar para curtir um pouco dessa situação.

 

A primeira recompensa desse período está diretamente relacionada com maior interação com meus amigos, pois com as recentes viagens constantes era difícil conciliar com os finais de semana de passeios, treinos e gastronomia. Para completar então a lista de recompensas desse período, listo alguns momentos marcantes: treinos noturnos durante a semana na Aldeia, a Subida dos Deuses, a Trilha da Cachoeira, a Chauás em Bertioga, os sábados na USP, entre outros que na sua totalidade sempre tiveram a participação dos meus inseparáveis e especiais amigos Marcão e a Capitã (Lilian Araujo).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poderia aqui escrever detalhadamente cada um desses momentos agradáveis, porém um em específico foi importante para essa nova fase, aqui já fazendo uma relação com o inicio do texto onde cito a reflexão sobre “vida”.

 

Voltando para o tema principal: XTerra 50k.

 

Desde o momento que tinha iniciado os treinos para o XTerra 50k e que fechei de fazer a prova com a Capitã ao meu lado, tinha a “plena certeza” que terminaria a prova. A única questão que sempre abordávamos era se terminaríamos a prova dentro do tempo limite estabelecido e qual seria o meu grau de sofrimento (mas já estava claro que sofreria muito).

 

Como sempre, os momentos iniciais de uma prova são os mais complicados para mim. Sem dúvidas a largada do XTerra não poderia ser diferente, tivemos que percorrer os dez primeiros quilômetros como se fosse uma prova de apenas 10k. A turma saiu a “milhão” como era esperado, ficamos entre os últimos na saída da largada, e por mais que fosse conservador na tentativa de economizar energia, praticamente fizemos esse trecho, ainda no semi-plano, dentro dos 6 min/km.

 

Ao abandonar esse trecho inicial, deixamos para trás a área urbana de Ilha Bela e começamos a subir em direção ao parque. Sempre economizando energia, observava a capitã na minha frente cantando, conversando e admirando a paisagem: “Nooooooooossa Baiano, olha que visual lindo .... não acha?l?”. Eu praticamente já cansado e pensando nos próximos 30km, sempre procurava manter um dialogo mais ou menos aberto: “Acho”. Depois sempre vinha uma piada, uma critica que era grosso, mas já estou meio acostumado e também não teria forças para contestar e falar que o que ela estava chamando de grosso eu entendia como cansado.

 

Passados os primeiros 20kms iniciais de “diversão”, a brincadeira começou a pegar mais pesado na entrada do parque onde pegamos uma trilha bem técnica, que apesar de tudo foi bem nossa “cara” de “aventura”. Depois desse ponto apenas me lembro de reclamar da interminável subida de 750m que não chegava ao fim. Apenas do sofrimento, chegamos ao ponto médio da prova dentro do prazo estabelecido para não pensarmos em corte, Foi apenas o tempo de pegar uma água no posto de abastecimento para já ouvir a capitã gritar: “Vamos!!! Agora é descida, vamos socar a bota”. Acho que por uns instantes ela esqueceu que estava correndo comigo, até tentei arriscar um mesmo ritmo do inicio da prova, mas sem condições de mante-lo de forma constante. Apesar da descida ser um estradão, encontramos muitas pedras soltas, buracos feito pelos jeepeiros, o cansaço era evidente e a noite limitava minha visão. Já não tinha os mesmos reflexos com a perna, dessa forma fomos alternando entre trotes e “andado” até chegar na praia.Ao chegar neste trecho e encontrar um visual fantástico com ajuda do reflexo da lua no mar, a Capitã comenta: “Nooooooooossa, que visual maravilhoso, lindo .... vamos dar um trotinho?”. Como já estava um pouco mais descansado, tive melhor condições então de manter um dialogo maior: “Porque não aproveitamos que o visual é realmente bonito, andamos um pouco e apreciamos mais, heheheheh”. Foi uma pena que este trecho era pequeno, pois ao final dele já pensávamos na dolorosa subida de volta ao centro de Ilha Bela.

 

A partir desse momento o final da prova seria apenas pela “cabeça”, pois pelo físico já estávamos limitado. Subimos lentamente até vencer o topo da volta, percebemos então que não somente estávamos dentro do “planejamento”, mas também tínhamos uma margem de segurança para finalizar a prova sem corte. Subida finalizada, astral elevado por estar dentro da prova, descemos que nem dois malucos até chegar ao centro de Ilha Bela onde tínhamos que correr por mais alguns kms, o que foi bem desgastante e lento.

 

Experiência fantástica, superação total e mais uma vez uma bela diversão na companhia de minha parceira Lilian Araujo.